Amnésia e Paz


Acordou e a cabeça pesava um quilo. Examinou suas memórias e a percebeu parcialmente apagada. Pouco vestigio de lembrança recente, ela desenvolveu uma certa habilidade para deletar episódios desagradáveis, afinal isso já está se tornando rotina.

Acionou o bom e velho companheiro noturno, em sabores, cores e texturas diferentes. A consequencia desta companhia é que se pode adotar personalidades variadas, as vezes isso é bom, outras nem tanto. Felizmente além dele estavam também presentes os bons e velhos amigos - os de sempre, e mais um, o de antigamente, este último foi a parte que não se esqueceu, uma recordação boa do que lhes proporcionarão dias de paz.

Com a cabeça afetada por uma amnésia, foi preciso a intervenção de um ser salvador para lembrar de sua chuva facial ou simplesmente choro. Está certa de que não foi o fato que fez brotar lágrimas de seus olhos, mas os fatos. Não fala, mas os dias andam dificeis, afinal, o sintoma dos sonhadores é o exagero. A dor é forte e o corte sempre parece mais profundo neles. O que é corrosivo nela é a exposição, nem o choro, nem o fato lhe importam tanto assim, mas ter se colocado em evidência, isso é o que realmente incomoda.

Se existem dias difíceis, deve se saber que também os amenos estão vindo. Seguirá reescrevendo sua história.


A casa azul


Tranca bem a porta, amor.
Fecha a janela e passa a tramela, por favor.
E se não se importa, amor.
Defume a casa em nome de Nosso Senhor.

Acabou a festa, amor.
Ainda tem uma cerveja no congelador.
Vamos ao que resta, amor.
Dia de festa é véspera de muita dor.

E se o fantasma ficar,
E se o cachorro latir,
E se o silêncio gritar,
E se o povo assumir.

E se a mulher não topar,
E se o amigo sumir,
E se o relógio parar,
E se o amanhã não surgir.

Tudo na mais perfeita ordem,
Tudo na mais santa paz.

(Tudo Na Mais Santa Paz - Toquinho e Vinícius de Moraes)

"Se vem do coração,
Não tem jeito, não,
Deixa acontecer..."

Pátria Minha




É sempre assim, a cada 4 anos a nação enche o peito e diz ter: ORGULHO DE SER BRASILEIRO – é a pátria de chuteiras. Nunca o sentimento de ‘brasileiridade’ é tão latente quanto em Copa do Mundo. Nos tornamos os apaixonados peritos do futebol.

O curioso é a forma como transformamos 23 homens em heróis, aqueles que com suas habilidades futebolísticas irão reacender o amor por nosso país. Os guerreiros canarinhos que defenderão o nosso patriotismo, a honra brasileira.

Mais estranho é que em Copa do Mundo se vai do céu ao inferno com uma facilidade assustadora. Uma falha pode custar aos heróis o título de demônios, ou os responsáveis por levar não somente o nosso nome, como também a nossa tão gloriosa honra para a lama.

Vi isso acontecer estes dias. Vi as lojas se enchendo de verde e amarelo. Moças colorirem suas unhas e, os homens, ah estes nunca entenderam tanto de futebol quanto agora. Fico me perguntando como seria se este sentimento de patriotismo se estendesse para os outros setores, se nos orgulhássemos tanto de ser brasileiros todos os dias e não somente a cada 4 anos.

Não posso deixar de dizer que vi os heróis tornarem-se vilões e mais uma vez o patriotismo ser enterrado à espera de 2014.
"A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria.(...)Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas."

Reinvento


É tempo de se reinventar, prática que ultimamente tem se feito bastante presente em seus dias. O nó na garganta se formou e não lhe resta alternativa senão dissolvê-lo - mais uma vez. Neste mesmo momento surgem idéias pré-fabricadas daqueles que outrora sentiram as mesmas angústias e anseios dela. Não quer a receita pronta do bem viver, apenas deseja curtir os sabores e dissabores de um tempo que é só seu.

"E então esse tempo (faz) deslembrar
Vai ser um bom momento pra me filtrar"

Across The Universe



A vida é o que você faz dela, somos o que queremos ser. Algumas coisas em perfeito estado, outras faltando aquele pedacinho, aquele tão simbólico e concomitantemente significativo. Mesmo assim, eu decido perceber que ainda o dia lá fora se apresente cinzento eu só consigo enxergar my vanilla sky. Acordei transbordando de sensibilidade (e por que não dizer FELICIDADE?) toda em caixa alta.

*Jai guru deva...om

*Só sei que nada sei...




Engraçado, mas a vida é bem curiosa na maioria das vezes. Sempre com seus altos e baixos nos pregando peças por vezes irremediavelmente sedutoras outras nem tanto. Ontem caminhava em meio a esses pensamentos conflitantes, em busca do que me compõe, quem sou e posso ser e todas essas angustiantes questões acerca da humanidade moderna ou seria pós-moderna?


O mundo pós-moderno exige que você seja tolerante a ponto de quase – quase por um triz – esquecer seus valores, seus anseios, singularidade. O mundo do imediatismo, dos relacionamentos sem valor, e quando falo em relacionamento não digo apenas entre um homem e uma mulher, mas entre os amigos, os colegas de trabalho e até mesmo familiares. Não há mais hoje em dia a preocupação de olhar no olho e dizer o que sente ou respeitar o que sente o outro. Há sim uma inversão de valores nos remetendo a solidão acompanhada.


Sei que estou bem longe da perfeição, aliás, arrisco dizer que todos nós estamos. Afinal, o que vem a ser perfeito nem os mais brilhantes conseguiram descobrir. Nunca me deparei com um ser assim, tão assustadoramente perfeito capaz de me fazer sentir como escória da humanidade. Não, sempre preferi os errantes, aqueles que tomam um ‘pileque’ de vez em quando e me dizem coisas que não esperaria ouvir, esses me fazem despertar de um “surto psicótico” ou para a vida.

Tal qual o filósofo, eu só sei que nada sei. Talvez você simplesmente não possa conceder tudo o que as pessoas esperam de você e vice-versa, acreditar que é fácil obter esta compreensão é o mesmo que acreditar em perfeição. Certa de que não existem certezas absolutas – a não ser as matemáticas – continuo aqui na busca do meu eu, coerência de meus atos e, tentando compreender a hostilidade do imediatismo moderno.

Doces Lembranças de um passado


Era um fim de tarde de um cálido dia de inverno aparentemente normal. O som gritante do telefone interrompe a refeição que para ela é sagrada depois de um dia de trabalho. Ao atender a ligação, uma voz que há muito não ouvia, não trazia mais aquele tom jovial e saudável de antes, mas jamais esqueceria aquela voz. Como algo arrebatador, ouviu dizer-lhe: -Trago uma triste notícia...
Ela fez-se silenciosa como se pressentisse o que estava por ouvir. Na verdade não era um pressentimento, no fundo sabia, mas não queria, definitivamente não queria escutar o que aquela voz tão familiar tinha para lhe dizer. E em trêmulas palavras confirmaram suas suspeitas. Seu pai havia falecido.
Ela, que já estava em silêncio, não conseguiu proferir palavra alguma, nem gesto, nem nada. Por segundos ficou imóvel sem saber o que pensar, sentir ou falar. Ouviu muitas coisas, mas pouco falou, quis naquele momento ficar solitária em meio aos seus próprios pensamentos.
Ao desligar o telefone, agarrou-se as suas lembranças, poucos postais, algumas fotografias e um gato de pelúcia pelo qual sempre fora muito apegada. Sentia como se um filme passasse em sua mente, podia fechar os olhos e enxergar nitidamente as caminhadas, podia ouvir novamente cada frase, as lembranças tomavam suas idéias, memórias daquela figura tão ausente que se fora. Percebeu que pouco sabia sobre aquela pessoa, quase nada. Não conhecia suas mínimas preferências, como cor, comida ou música. Nem ao menos sabia sua idade ou data de aniversário. O que lhe vem à cabeça é a imagem de um jovem senhor que adorava caminhar pela cidade –mesmo a contragosto da filha. Vem-lhe a vista da Gambôa, o pôr do sol, as coisas que ele sempre quis passar para ela. Não o conhecia bem, nem ele a ela. Não a vira crescer, torna-se mulher, alcançar vitórias – poucas até agora, mas ainda assim, vitórias. A moça também pouco o conhecia, mas tinha a consigo a certeza de que havia conhecido o melhor daquele homem que se esforçava para chamar de pai. Conheceu a simplicidade de um crepúsculo, a cultura, definitivamente é pouco, mas prefere crer que foi o melhor.
Machuca-lhe lembrar da última vez em que se viram, da ausência, de que há muito não tem pai, que o perdera não apenas uma, mas duas vezes.
Coincidentemente –ou não, neste mesmo dia havia recebido de um amigo uma mensagem que lhe dizia que a distância permite a saudade e nunca o esquecimento. Ela mesma não era capaz de esquecê-lo, das coisas que vivenciaram, dos lugares por onde passaram, das palavras, do afeto, do pouco que tiveram.
Lembranças -agora mais do que nunca, são apenas doces lembranças de um passado. O que lhe parte o peito não é ausência em si, pois esta já se fazia presente, mas o fato de que ele partiu sem lhe dizer o quanto a amava e ela a ele. Mesmo com todos os erros sentia sua falta. Gostaria de ter dito muitas coisas, mas já era tarde, ele se foi. Ficarão para sempre guardadas as memórias de um tempo que passou. E novamente prostra-se em silêncio.
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