Virginiana II


Para as palavras, silêncio
Do silêncio, ausência
Para ausência, dor.

Para a dor, prece – aparador.
Para a prece, pressa
Para esta, análise.

(Na análise refugio e por assim um tanto fuga)

E lá, verdade
E na verdade, encontro
Para o encontro, corpo

E por fim, o desenrosco sutil. 

Virginiana



Para o amor, um abrigo
Para um abrigo, um felino
Para o felino, o mel.
Para a vida, o sorriso
Para o sorriso, uma flor.
Para a flor, o beijo
Para o beijo, chuva.
Para a chuva, o calor.
Para o calor, os corpos.

E para os corpos, o despudor. 

Das loucuras da vida e os erros que nos compõem




Outro dia caminhava pelas estradas de barro que há muito não via. Tropecei no meio com uma pedra. Estava lá no meu caminho. Não quis ver a pedra, mas vi. Evitei o quanto pude o relacionamento com a pedra, mas como dessas coisas que acontecem sem avisar, sem hora, sem marcar, sem nada a pedra fez morada.
Expulso a pedra todos os dias, repulsivo sentimento por ela que tenho, é posse. Pedra danada que fica de lá e de cá e não sai.
Mentira! Não rejeito a pedra, em verdade alimento a paixão por ela. Hoje o corpo pesa, o peso da pedra bate, é o revés da calma.
Pedra, pedrinha minha – mentira!

Não é minha, nem de alguém. Talvez nem dela mesma.  

2008




Éramos risos, cores, amizades e vida.
Éramos o tudo e o amanhecer ensolarado, éramos o rei no rádio, as tardes risonhas.
Éramos a vida que queríamos as flores amarelas da estrada, as viagens que não voltam mais.
Eram três, eram dois, um só. Éramos!
E partidos fomos, errantes, errados, humanos.
E somos o que dizemos o que fazemos e o que não falamos. Somos o amor e a dor, somos saudade.
E hoje, vendo-os refazer-se sinto uma lacuna enorme de uma ferida que nunca cicatriza que nunca fica em silêncio, que grita perdida.
Saudade é o nome que se dá a tudo que foi,

que éramos e em algum lugar ainda somos.  

Dois a Rodar




Eram dois,
E naquele momento os sons se abafaram
Os risos se distanciaram, a rua foi para longe, o asfalto se afastou dos pés.
Enquanto se tocavam os dois poderiam sentir um e o outro num só
Estavam sós, a sós. Os rostos alheios tornaram-se desimportantes, o nada.
Ali, onde as ruas e o barulho se foram, justo ali tudo havia e nada havia
Eram dois a rodopiar, flutuantes no espaço que se tornava só deles.
Eram dois a rodar em contramão, entre beijos e abraços partidos
Em despedidas entrecortantes, angustiantes, músculos reprimidos, palavras contidas

Eram apenas dois.  

A glass of wine



O mais triste do solitário não é a solidão em si.
É estar preso numa sala, cercado por pessoas
Você grita e ninguém ouve, chora e ninguém acolhe
Onde está? A calmaria onde está?
Um meteoro atingiu a nuca – e como dói.
Sangra, nunca estanca.
E no mundo o desespero. Por que não ser menos?
Qual o porquê de tanta intensidade, choro e dor.
O corpo não queima mais, arde e espalha desolação.
É desesperador. 

O amor se manifesta




Ainda em desamor, tempo de amor será.

É a frase que toca o momento mais presente. Há exatos 12 meses acreditava que o desamor iria para nunca mais, engano. As pessoas ficam vulneráveis quando solitárias, acreditam em tudo que tocam, sentem com mais intensidade do que deveriam e falham, afinal é humano.

Outro dia conversava com alguém que dizia não acreditar no amor, que era uma fantasia cinematográfica, incapaz de ser real, pois a rotina esmaga o amor. Uma máxima muito forte para se ouvir antes dos trinta e com ânsia de desbravar o mundo.

Acredito no amor que se manifesta das ínfimas formas. Em cada partícula de amizade, em cada beijo ou abraço, ou num simples sorriso da criança.

O amor é leve e nos faz querer ser mais e melhores do que somos, é despretensioso. Também pode ser faminto, suplicante, urgente, mas nunca egoísta. Não pode exigir não se doa mais do que recebe. O amor não grita, recebe e pronto. Há de ser legítimo o seu tempo e facilmente reconhecido. Não acredito no amor que implora, humilha, destrata, maltrata... No amor que não ama, apenas demanda.

Já que fui ouriço, borboleta e flor. Acredito em tempo de amor. Embora num mundo onde as pessoas não se olham mais, não se respeitam ou cuidam. Tudo é frágil, as amizades, os amores descartáveis, a vida descartável. Quem sabe um dia.

Os mais próximos sabem. A vida às vezes é fardo difícil de carregar. Mesmo assim, tempo de amor será.
Acredito no som dos pássaros, no barulho da chuva e no riso mais sincero do bebê que ainda desconhece o mundo.  “De dentro, se vê o longe.”

Ontem eu chorei não de tristeza, de amor. Agradecia por ainda reconhecer em meu caminho olhares sinceros – mesmo em desamor.

E se é verdade que “A mente criativa não se contenta com a mesmice (...) os criativos têm o poder de mudar o mundo da forma mais brusca e verdadeira” – Ainda em desamor, tempo de amor será. 
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