*Só sei que nada sei...




Engraçado, mas a vida é bem curiosa na maioria das vezes. Sempre com seus altos e baixos nos pregando peças por vezes irremediavelmente sedutoras outras nem tanto. Ontem caminhava em meio a esses pensamentos conflitantes, em busca do que me compõe, quem sou e posso ser e todas essas angustiantes questões acerca da humanidade moderna ou seria pós-moderna?


O mundo pós-moderno exige que você seja tolerante a ponto de quase – quase por um triz – esquecer seus valores, seus anseios, singularidade. O mundo do imediatismo, dos relacionamentos sem valor, e quando falo em relacionamento não digo apenas entre um homem e uma mulher, mas entre os amigos, os colegas de trabalho e até mesmo familiares. Não há mais hoje em dia a preocupação de olhar no olho e dizer o que sente ou respeitar o que sente o outro. Há sim uma inversão de valores nos remetendo a solidão acompanhada.


Sei que estou bem longe da perfeição, aliás, arrisco dizer que todos nós estamos. Afinal, o que vem a ser perfeito nem os mais brilhantes conseguiram descobrir. Nunca me deparei com um ser assim, tão assustadoramente perfeito capaz de me fazer sentir como escória da humanidade. Não, sempre preferi os errantes, aqueles que tomam um ‘pileque’ de vez em quando e me dizem coisas que não esperaria ouvir, esses me fazem despertar de um “surto psicótico” ou para a vida.

Tal qual o filósofo, eu só sei que nada sei. Talvez você simplesmente não possa conceder tudo o que as pessoas esperam de você e vice-versa, acreditar que é fácil obter esta compreensão é o mesmo que acreditar em perfeição. Certa de que não existem certezas absolutas – a não ser as matemáticas – continuo aqui na busca do meu eu, coerência de meus atos e, tentando compreender a hostilidade do imediatismo moderno.

Doces Lembranças de um passado


Era um fim de tarde de um cálido dia de inverno aparentemente normal. O som gritante do telefone interrompe a refeição que para ela é sagrada depois de um dia de trabalho. Ao atender a ligação, uma voz que há muito não ouvia, não trazia mais aquele tom jovial e saudável de antes, mas jamais esqueceria aquela voz. Como algo arrebatador, ouviu dizer-lhe: -Trago uma triste notícia...
Ela fez-se silenciosa como se pressentisse o que estava por ouvir. Na verdade não era um pressentimento, no fundo sabia, mas não queria, definitivamente não queria escutar o que aquela voz tão familiar tinha para lhe dizer. E em trêmulas palavras confirmaram suas suspeitas. Seu pai havia falecido.
Ela, que já estava em silêncio, não conseguiu proferir palavra alguma, nem gesto, nem nada. Por segundos ficou imóvel sem saber o que pensar, sentir ou falar. Ouviu muitas coisas, mas pouco falou, quis naquele momento ficar solitária em meio aos seus próprios pensamentos.
Ao desligar o telefone, agarrou-se as suas lembranças, poucos postais, algumas fotografias e um gato de pelúcia pelo qual sempre fora muito apegada. Sentia como se um filme passasse em sua mente, podia fechar os olhos e enxergar nitidamente as caminhadas, podia ouvir novamente cada frase, as lembranças tomavam suas idéias, memórias daquela figura tão ausente que se fora. Percebeu que pouco sabia sobre aquela pessoa, quase nada. Não conhecia suas mínimas preferências, como cor, comida ou música. Nem ao menos sabia sua idade ou data de aniversário. O que lhe vem à cabeça é a imagem de um jovem senhor que adorava caminhar pela cidade –mesmo a contragosto da filha. Vem-lhe a vista da Gambôa, o pôr do sol, as coisas que ele sempre quis passar para ela. Não o conhecia bem, nem ele a ela. Não a vira crescer, torna-se mulher, alcançar vitórias – poucas até agora, mas ainda assim, vitórias. A moça também pouco o conhecia, mas tinha a consigo a certeza de que havia conhecido o melhor daquele homem que se esforçava para chamar de pai. Conheceu a simplicidade de um crepúsculo, a cultura, definitivamente é pouco, mas prefere crer que foi o melhor.
Machuca-lhe lembrar da última vez em que se viram, da ausência, de que há muito não tem pai, que o perdera não apenas uma, mas duas vezes.
Coincidentemente –ou não, neste mesmo dia havia recebido de um amigo uma mensagem que lhe dizia que a distância permite a saudade e nunca o esquecimento. Ela mesma não era capaz de esquecê-lo, das coisas que vivenciaram, dos lugares por onde passaram, das palavras, do afeto, do pouco que tiveram.
Lembranças -agora mais do que nunca, são apenas doces lembranças de um passado. O que lhe parte o peito não é ausência em si, pois esta já se fazia presente, mas o fato de que ele partiu sem lhe dizer o quanto a amava e ela a ele. Mesmo com todos os erros sentia sua falta. Gostaria de ter dito muitas coisas, mas já era tarde, ele se foi. Ficarão para sempre guardadas as memórias de um tempo que passou. E novamente prostra-se em silêncio.

*Sejamos como o sol, que brilha!!!


"Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?"

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada
coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua
toda brilha,
Porque alta vive. (F. Pessoa)

E fica o dito pelo não dito...


Eu queria saber escrever uns versos hoje. Queria uns que fossem cortantes e penetrassem a carne de algumas pessoas especificamente. Mas infelizmente nem eu sei confeccionar escritos assim, e nem certas coisas merecem o crédito a ponto de queimar meus miolos tentando extrair de mim alguma coisa que corte. Então, me pego aqui novamente na tentativa de renovar a minha pele, tão desgastada das últimas horas. Os últimos dias não foram lá muito fáceis. Muitas especulações, conspirações, ‘disse-me-disse’... Urubus pairando em torno da felicidade alheia. Fazer o quê?!
Estes simplesmente escolheram viver em função da desgraça do outro, não mais olham para suas vidas, preferem viver como sanguessugas, absorvendo (ou tentando) a energia de quem é naturalmente afortunado –dotado de luz.
Lendo –tentando alimentar meu espírito de coisas boas-, eu me deparei com uma frase facunda “A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”. Lamentavelmente existem por aí esses “zumbis” perambulando dia e noite à procura de sangue fresco, arquitetando planos de destruição e sem saber que estão envenenando suas almas, cavando seu próprio sepulcro.
Levanto convicta de quem sou, sigo minha vida na paz –que me acolheu, sem precisar praguejar ninguém.



“Então, o rei Dario escreveu aos povos, nações e
homens de todas as línguas que habitam em toda a terra: paz vos seja
multiplicada! Faço um decreto pelo qual, em todo o domínio do meu reino, os
homens tremam e temam perante o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e que
permanece para sempre; o seu reino não será destruído, e o seu domínio não terá
fim. Ele livra, e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra; foi ele
quem livrou a Daniel do poder dos leões” (Dn 6:25-27)

Tudo 'num' só


Depois de achar que tinha passado pelas mais bizarras formas de destrato. De acreditar que nada mais a surpreenderia, um fato, fez cair por terra todas as certezas e convicções acerca disto. As razões as quais desencadearam tais atitudes permanecem no silêncio, o mesmo que se fez com a voz dela, o grito que implodiu estourando diversos vasos sanguíneos formando chagas indolores em sua pele. A dor não é física, embora sentisse como se estivesse com um machado cravado em suas costas, formando um peso tão grande, quase capaz de deixá-la ali envergada como o menino Benjamin. É como uma onda circundante que se alastra deixando-a abalada, é na alma, é ela que se sente corroída. Bem se sabe que as dores tomem elas as formas, gosto e cheiro que possam, não duram eternamente, o que não mata, nos fortalece. São as máscaras que não se sustentam por muito tempo –felizmente. Nem se tenciona estabelecer um discurso maniqueísta em torno do bem e do mal, mas ao que parece a guerra foi declarada, mas nunca ouvi, li ou vi em qualquer lugar sobre o triunfo do mal. E se hoje me perguntarem o que é ser bom ou mal, a resposta está aqui na ponta da língua. Ser bom é trazer a consciência limpa, leve, livre da culpa da causa do sofrimento alheio. Alguns simplesmente não se importam, outros sim, existem os que fingem não serem tocados pelo sentimento de humanidade, e ainda aqueles que resumem tudo num só ser, que prefere a autoflagelação esquecendo que sempre se pode ser melhor do que é. Nada disso ou daquilo faz parte dela, nem aquele ser. Não se mutila, ou venda seus olhos com uma nuvem derrotista, não olha para trás com mágoas, olha adiante com esperança de dias em que momentos assim serão apenas sombras lamentáveis de um passado distante. Ser cruel nem de longe assombra a sua existência. Tudo fora um infeliz contratempo, mais uma barreira a ser transposta – e será.



"...Vou consertar a minha asa quebrada

e descansar"

Cinco doses de qualquer coisa


Cinco doses de cachaça, bem me lembro, começava assim. Numa tarde de Segunda (cálida tarde), cinco amigos reunidos em prol de qualquer coisa que os remetesse a alguma outra que lhes trouxesse felicidade. Felicidade, palavra concomitantemente doce e ácida, passamos dias e dias esperando por qualquer traço que nos leve a ela. Na verdade seguimos sempre uma tendência nociva de não enxergar – ou reconhecer, o que e quem temos. Todos nós sabemos a vida nossa não é sempre repleta de dias ensolarados, existem ainda aqueles cobertos de cinza, marcado por dores e sons estridentes. O que nos difere uns dos outros é exatamente a maneira como encaramos nossos momentos, a solidão realmente dói mais em alguns e existem ainda aqueles que não sabem lidar com o amor, pior ainda, com o desamor. Ontem eu entrava no túnel do tempo – do meu tempo. Um punhado de sensações me invadiu e ainda agora estão instaladas e assombrando minhas idéias. Não que sejam essas – sensações-, tão negativas assim, algumas são dolorosas, outras nem tanto, mas o fato é que não consigo conviver com a saudade. Olhando para a mesa, conseguia sentir o cheiro da comida dela e me lembro com tanto frescor – como sinto o cheiro do sabonete em minha pele depois do banho-, de quando ainda pequena, sem muito entender, eu segurei suas mãos e tentei abafar suas lágrimas. Ah, fortes lembranças!
Nem de longe aquele espaço traz o cheiro de outrora, mas as lembranças estão ali, vivas, tão vivas quanto eu, ou você que lê essas linhas agora. As histórias passadas batendo em minha cabeça como quando bate o som do despertador numa manhã de ressaca.
Na volta, certamente eu não era mais o que fui antes de estar lá, com dois quadros em punho e o peito apertado por vivenciar um pouco da solidão daquele outro, e uma vontade gritante de fazer algo por ele. Mas o quê? Talvez um fardo pesado demais, mas ela acha que pode suportar o peso do mundo.
O abraço da mãe não veio, mas a comida estava lá quentinha, um bom livro e a cama pronta, o que mais poderia querer? Talvez as cinco doses de cachaças que ficaram retidas no final de semana anterior, afinal bons amigos são raros, os sonoros e loucos ainda mais. As melhores amizades certamente não se fazem numa leiteria.

*E o que eu vou ver? Sei lá...


Incrível, mas, o silêncio das horas, o vasto espaço do apartamento vazio e a solidão dizem mais sobre você e as coisas, do que você supunha.
Ontem os instantes eram tão intensos e lhe abraçavam como sentimentos de um tempo passado. Você evitou, correu tanto disto quanto aquela menina que corre apressada para não perder a condução. Sozinha na avenida, ela abre seu guarda-chuva cor cereja e cabisbaixa procura despistar os olhares interrogativos dos aborígenes da cidade. Aquela que dizem ser da alegria, mas que na verdade mais profunda traz a tristeza dos edifícios cinzentos, da velocidade e vagarosidade do tráfego, do olhar que ninguém mais vê.
Voltando ao começo, questiona-se a respeito do que fez e do que se permitiu vivenciar. Estaria ela, agora, neste momento ruminando erroneamente sobre as coisas passadas? Resta a dúvida, estaria no seu exato afinamento com suas noções de tempo e espaço? Uma longa pausa para respiração profunda lhe diz mais do que as palavras que tenta exteriorizar. Definitivamente não há erro quando se é feliz, ou quando se está. Incrivelmente, as pessoas possuem dentro delas uma terrível, amarga e angustiante sensação de que quando as coisas acabam elas não deram certo, em verdade, elas funcionaram bem, no momento em que deveriam funcionar. O agora é hoje, o ontem já foi, e no amanhã o que eu verei não sei, mas resta a convicção que não estarei de lá com olhos fadigados e impressões amarguradas, ela estará de pé como um estandarte da beleza que nunca é finda, verdade que nunca é nula e amor inesgotável.
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